Resenha: Cinco relatos de um tema (Clarice Lispector)

Em Cinco relatos de um tema, a autora expõe diversas narrativas essencialmente semelhantes. O problema principal é exposto: a narradora queixa-se de baratas. Uma senhora ouve-lhe a queixa e dá-lhe a receita de como matá-las. A partir do antídoto utilizado, a história é elaborada e divide-se em várias interpretações. Segundo ela mesma, levariam mil e uma noites para serem relatadas: uma referência à compilação de contos e histórias populares do Oriente Médio.

O primeiro relato trata-se de um texto conciso e objetivo: o tal antídoto consiste em partes iguais de açúcar, farinha e gesso. Supostamente, a mistura funciona como uma armadilha e as baratas morrem. Nisso, em seguida, outro relato é exposto, e dessa vez, a rotina das baratas é o foco. A narradora estuda todo o seu trajeto, de modo a sentir-se como uma delas. O planejamento é bem sucedido, e mais uma vez, as baratas são encontradas mortas.

Há um terceiro relato que mostra o produto as quais as baratas se tornaram após a transformação. Atingidas pelo gesso, são associadas a estátuas. O texto dá ênfase ao movimento e às formas, detalhes não explorados nos parágrafos anteriores. O galo que canta ao amanhecer, um detalhe sutil, denota a interseção entre as histórias.

A quarta marrativa traz um problema novo: seria o ataque às baratas uma busca incessante? Nota-se que a atividade, embora desagradável, traz o prazer de um esforço bem sucedido. Ao mesmo tempo que a narradora quer se livrar das invasoras de seu apartamento, o relato do processo a aproxima do suposto problema. Dessa forma, as baratas tornam-se extremamente importantes para ela. Livrar-se delas era uma forma de mantê-las consigo.

É possível prever os acontecimentos do quinto relato, apesar do título inusitado e da interrupção abrupta. O plano de fundo, um apartamento infestado de baratas, possui uma estrutura simples, o que causa choque no leitor e o guia a pensar nas demais mil e uma histórias.

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Carolina Haine

24 anos, brasiliense, apaixonada por literatura e chá. Criou um blog em 2004 e desde então nunca mais parou.

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